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elogio da desordem

Ouvir

Há uma espécie de admiração desconfiada entre as artes, um respeito pelo trabalho do outro sobre um material que não se domina. O compositor tende a ver e a ler o mundo como quem ouve. Em Through this looking glass (2010), a Joana Sá dá-nos a ler alguns textos que fazem parte desse seu mundo sonoro e de uma performance que o Daniel Neves pôs em imagens — textos e imagens que balizam a exploração de uma enorme liberdade musical. Buscando sempre a libertação, a energia e a surpresa do gesto sonoro, o Elogio da desordem é formalmente mais rígido, abdica da imagem e acaba por dar voz a textos de Gonçalo M. Tavares. O discurso organiza o pensamento que filtra a mente que é múltipla, desordenada, excêntrica, volúvel. A música é o Elogio da desordem que se passa na nossa cabeça, capaz de nos restituir (com incómodo, por vezes, dolorosamente) não apenas a multiplicidade de ideias, imagens, sons e até vazios, mas sobretudo a sua simultaneidade. É por isso que a Joana Sá, utilizando em concerto técnicas outrora exclusivas do estúdio, usa a gravação para colocar o ouvinte no lugar da pianista, da compositora e da Rosinda Costa, vendo, lendo e falando.

Guilherme Proença


Elogio da Desordem/ CD apoiado pela GDA e editado pela Shhpuma (Outubro de 2013)


No regresso ao Teatro Maria Matos, a pianista Joana Sá estreia Elogio da Desordem, um monólogo interior para piano semi-preparado, acompanhado por instalação de campainhas e sirenes, toy piano, caixas de ruído, mini-amplificadores, voz e eletrónica. Aproximando-se do teatro instrumental, Elogio da Desordem procura um discurso musical no qual irrompe ocasionalmente a palavra. Ultrapassando os limites habituais de uma pianista, Joana Sá tenta dar resposta aos sistemas de desordem por si criados, imaginados ou vividos numa performance musical que tem implícita uma coreografia de acções - nas suas palavras, é música para ver, ouvir e pensar. Nesta busca pela representação de um espaço interior através das dimensões musical, textual e visual, a pianista rodeou-se das sensibilidades de Gonçalo M. Tavares, Daniel Costa Neves e Pedro Diniz Reis incorporando no monólogo as suas várias vozes. ( Teatro Maria Matos )

música, conceito & performance Joana Sá
textos * Gonçalo M. Tavares
voz Rosinda Costa
construção de instalação de campainhas & sirenes Luís José Martins
construção de caixas de ruído André Castro

Ao vivo:
vídeo Daniel Costa Neves, Pedro Diniz Reis
desenho de luz Daniel Costa Neves & Tela Negra

CD:
gravado por Hélder Nelson
misturado por Eduardo Raon
produzido por Joana Sá, Luís José Martins e Eduardo Raon
design Luís Henriques
booklet feito no “O Homem do Saco” por Luís Henriques e Mariana Pinto dos Santos.

* excertos retirados de animalescos (Relógio d’Água 2013), O Senhor Swedenborg e as investigações geométricas (Caminho 2009) e Uma viagem à Índia (Caminho 2010).

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